Entrevista: Martín Becerra fala sobre seu novo livro Wiki Media Leaks

wikimedialeaks “Elites empresariais, jornalísticas e políticas são mais agressivas com as políticas de transformação na AL do que a própria Embaixada dos EUA”

 

“...quando o governo se inclina para o modelo japonês, o ministro explica ao embaixador que iam escolher outra norma, mas o assegura que o modelo de rádio digital do Brasil será o norte-americano.”                                                                                                                                                                                  Por Glauciene Lara*

Na aula magna do Colégio Nacional de Buenos Aires, um edifício que mistura estruturas construídas entre os séculos XVII e XIX, Martín Becerra, pesquisador de Políticas de Comunicação e professor das Universidades de Buenos Aires e Quilmes, e Sebastián Lacunza, jornalista de Ámbito Financiero, lançaram o livro Wiki Media Leaks – La relación entre medios y gobiernos de América Latina bajo el prisma de los cables de WikiLeaks. Dos 250 mil cabos – comunicação entre duas instituições diplomáticas – divulgados pela organização, 32 mil têm origem nas embaixadas norte-americanas na América Latina. Desse total, cerca cinco por cento referem-se aos meios de comunicação. Esta foi a amostra da pesquisa dos autores. Além de trazer uma análise regional da concentração mediática e do capítulo a parte para o país de origem dos autores, o livro divide-se de acordo com a relação que os países mantêm com os Estados Unidos: aliados, como Peru, Chile e Colômbia, e não aliados, como Bolívia, Equador, Honduras e Venezuela. Brasil e México também mereceram um capítulo a parte, pela dimensão geopolítica que têm e pela relação pragmática entre governos, empresas de comunicação e embaixadas. Segundo os autores, “os papeis se alternam e se confundem: os meios de comunicação e os políticos podem ser fonte e apuradores de informação indistintamente, retroalimentando as versões que se originam nesses círculos herméticos”. Martín Becerra comenta essas relações surpreendentes que encontrou nos cabos e resultaram no livro lançado por Ediciones B.

 

 

GL: Como surgiu a ideia do livro?

MB: Começou porque Sebastián Lacunza é jornalista da seção internacional e eu me dedico à pesquisa sobre a estrutura dos meios de comunicação na América Latina. Quando a organização WikiLeaks, de Julian Assange, começou a liberar todos os cabos, começamos a trocar impressões informais sobre o que estávamos lendo. Víamos que havia informações nos cabos que não apareciam nos meios de comunicação. Até que fomos acumulando uma quantidade de conteúdo que não aparecia em lugar nenhum e nos demos conta que havia material para fazer um livro.

 

GL: Antes de ler os cabos, vocês tinham uma ideia, uma hipótese do que iam encontrar? Essa hipótese foi confirmada?

MB: Tínhamos uma hipótese influenciada pelo que havíamos lido nos meios de comunicação sobre os primeiros cabos, que tiveram uma edição frívola, ou seja, características da vida privada de alguns presidentes. Pensamos que os cabos iam para este lado, por isso a surpresa ao ver que a maioria dos cabos não falava da vida íntima de presidentes, mas de questões políticas fortes. Também foi surpreendente a função política explícita que têm os meios de comunicação em reuniões privadas com a Embaixada. Quando as empresas privadas vão à Embaixada, explicitamente, assumem-se como um ator político enquanto que diante da sociedade são atores jornalísticos. Outra surpresa é que muitas elites empresariais, jornalísticas e políticas dos países latino-americanos são mais agressivas com as políticas de transformação do que a própria Embaixada dos Estados Unidos, que é mais moderada.

 

GL: O que é a endogamia da circulação de informação, a qual você se referiu no lançamento do livro?

MB: É a situação que se dá entre alguns notáveis colunistas políticos de nossos países e a Embaixada norte-americana. Eles vão ao embaixador, por exemplo, com a ideia prévia que têm do governo e dizem: “este governo é péssimo, intervencionista, está ferindo os princípios da liberdade de expressão”. O embaixador escuta-os, mas, porque é um diplomata, não se pronuncia sobre isso de forma terminante. Esses colunistas saem de lá acreditando que contam com o aval da Embaixada para dizer essas mesmas ideias, invocando a representação diplomática: “segundo os diplomatas dos Estados Unidos..., a Embaixada está preocupada..., os Estados Unidos estão preocupados com tal coisa”, quando na realidade é sua própria ideia. É uma relação de umbigo, de endogamia, em que a circulação de informação se produz entre pouquíssimas vozes. Quando alguém observa, lendo os cabos, que se tratam de grandes colunistas de muita influência, empresários do jornalismo e de políticos que têm grande envergadura, isso é digno de preocupação. Se as elites não se dão conta que estão produzindo informação fragilizada por sua própria endogamia, significa que as decisões que tomam se baseiam em uma informação completamente sem oxigenação.

 

GL: A escolha dos países foi baseada nos cabos? Houve países que ficaram de fora?

MB: Infelizmente, tínhamos que fechar a edição do livro e não pudemos abarcar todos os países latino-americanos. Por exemplo, lamentavelmente, não falamos sobre o Uruguai no livro, entre outros países. Mas acreditamos que abarcamos todos os países sobre os quais há cabos importantes relacionados ao sistema de meios. Acredito que a seleção é muito representativa da América Latina. Os países que não estão são aqueles sobre os quais há pouca comunicação diplomática relativa aos meios.

 

GL: Um assunto que chama a atenção durante a leitura do livro é a escolha do padrão de TV Digital. Como foi a relação entre o Brasil e a Embaixada norte-americana nesse aspecto? 

MB: O Brasil foi o primeiro país latino-americano que adotou o padrão japonês e provocou um efeito em cascata sobre os demais. A Embaixada fez muito lobby a favor do padrão norte-americano. O ministro da época, Hélio Costa, se deixava seduzir, dava mensagens ambíguas. E finalmente quando o governo se inclina para o modelo japonês, o ministro explica ao embaixador que iam escolher outra norma, mas o assegura que o modelo de rádio digital do Brasil será o norte-americano. É como se o ministro estivesse justificando uma má conduta, ou seja, pede desculpas por ter se distanciado do que os norte-americanos desejavam neste caso, mas promete compensar em outro. Os cabos do Brasil são dos mais ricos para se analisar, não só porque há uma grande quantidade de cabos, mas também porque os Estados Unidos têm oito ou nove consulados no país, além da Embaixada. É uma representação diplomática significativa, pelo tamanho da economia e pela importância geopolítica do Brasil. Então, parece-me que a Embaixada sabe que às vezes perde em algumas negociações estratégicas, como a da TV Digital, mas ganha em outras.

 

GL: Que contribuições o livro traz à pesquisa em Políticas de Comunicação na América Latina?

MB: Acho que é um exemplo de pesquisa aplicada. Fizemos um exercício de pesquisa com fontes claras, públicas, concretas, que têm relação com as políticas de comunicação, com a estrutura dos meios de comunicação, com o papel dos atores políticos-mediáticos na América Latina, com a geopolítica de comunicação em nível regional. Acredito que há processos que só são compreendidos quando olhamos para muitos países e não para um só. Às vezes, estamos acostumados à pesquisa que analise um caso, um país, que pode ter suas virtudes. Mas para pensar os processos políticos comuns que estão ocorrendo nos últimos dez anos e para pensar o que está por vir, temos que analisar de forma comparativa, em nível regional. O material do Wikileaks, assim como nos permitiu concentrar na questão dos meios, das empresas de telecomunicações, também está disponível para colegas que querem empreender outros olhares, porque é um material muito vasto e ainda virgem.

 

*É jornalista e mestranda em Comunicação, na Linha de Políticas de Comunicação e Cultura, do Programa de Pós-graduação em Comunicação da Universidade de Brasília